Limites Humanos · Jana Barcellos
O estresse que fortalece e o estresse que adoece

Há uma ideia em Antifrágil, de Nassim Nicholas Taleb, que me fez pensar sobre a forma como aprendemos a falar de estresse.
Taleb escreve sobre sistemas que não apenas resistem à instabilidade, mas que podem se beneficiar dela. A ideia de antifragilidade é interessante justamente porque contraria uma associação que fazemos com muita facilidade: se algo provoca tensão, desconforto ou desequilíbrio, então necessariamente nos faz mal.
Com o corpo humano, a história é mais complexa.
Pense no exercício físico. Durante um treino, submetemos o organismo a uma demanda maior do que aquela a que ele estava submetido em repouso. Há esforço, alterações fisiológicas, gasto de energia e necessidade de adaptação. Ainda assim, quando esse estímulo é adequado e existe recuperação, o organismo responde.
Em fisiologia, conhecemos bem essa capacidade de adaptação. Determinados estímulos, em determinadas doses, podem provocar respostas que preparam o organismo para lidar melhor com novas demandas.
O estresse também faz parte da nossa capacidade de adaptação.
Diante de uma situação que exige atenção ou resposta rápida, o organismo se mobiliza. A frequência cardíaca pode aumentar, há liberação de hormônios envolvidos na resposta ao estresse, mais energia fica disponível e diferentes sistemas trabalham para que possamos responder ao que está acontecendo.
Esse mecanismo não é uma falha do corpo. É uma das razões pelas quais conseguimos atravessar situações difíceis.
O problema começa quando uma resposta que deveria ser temporária encontra uma rotina que praticamente não oferece oportunidade de recuperação.
E essa diferença me interessa muito.
Ao longo de mais de vinte anos trabalhando e estudando saúde, vi muitas pessoas chegarem ao limite sem que existisse um único grande acontecimento responsável por isso. Não foi necessariamente uma semana particularmente difícil, uma reunião, um prazo ou uma noite mal dormida, foi o acúmulo.
Meses, às vezes anos, em que as demandas continuaram chegando enquanto sono, descanso, atividade física, lazer e tempo de recuperação foram sendo negociados para caber mais alguma coisa na agenda.
O organismo consegue se adaptar a muita coisa. O que ele não consegue é fazer isso indefinidamente sem custo.
Quando as demandas permanecem elevadas por longos períodos e a recuperação se torna insuficiente, começamos a falar de outra condição. Sono, humor, concentração, comportamento e saúde cardiovascular podem ser afetados, e aquilo que durante algum tempo pareceu apenas uma fase difícil começa a ocupar espaço demais na vida.
É aqui que a comparação com o exercício volta a fazer sentido.
O benefício do treino não está apenas no esforço. Está na relação entre estímulo e recuperação.
Curiosamente, quando falamos de trabalho, costumamos valorizar apenas metade dessa equação.
Celebramos quem aguenta, quem responde rápido, quem permanece disponível, quem consegue encaixar mais uma reunião, quem atravessa uma semana difícil e, na segunda-feira seguinte, aparece novamente como se nada tivesse acontecido.
A recuperação raramente aparece no currículo, mas o corpo registra a ausência dela.
Para as mulheres, essa conversa ainda ganha outras camadas. A resposta ao estresse acontece dentro de uma fisiologia que muda ao longo da vida, sofre influência hormonal e convive, muitas vezes, com uma sobreposição de demandas profissionais, familiares e de cuidado.
Reconhecer isso não diminui capacidade profissional e muito menos significa determinar o desempenho de uma mulher a partir de sua biologia. Significa admitir que nenhum ser humano funciona como uma máquina de produção contínua.
Essa discussão também ajuda a rever uma ideia muito difundida sobre saúde: a de que uma vida saudável seria uma vida sem estresse. Não seria.
Viver envolve esforço, mudança, frustração, prazos, decisões difíceis, imprevistos, perdas, responsabilidades e períodos em que precisaremos entregar mais. Tentar eliminar qualquer desconforto da experiência humana seria tão pouco realista quanto esperar que um músculo se fortaleça sem nunca ser exigido.
A pergunta mais interessante, para mim, está em outro lugar: o que acontece depois da exigência?
Existe espaço para o organismo retornar? Existe sono suficiente depois de uma sequência de dias intensos? Existe uma rotina em que períodos de maior demanda sejam realmente períodos, e não o modo permanente de funcionamento? Existe uma cultura de trabalho que permite recuperação ou apenas muda o nome da exaustão para comprometimento?
É por isso que tenho certa resistência quando o cuidado com o estresse é reduzido a recomendações individuais.
Uma pausa ajuda, atividade física ajuda, sono adequado importa e estratégias de regulação podem ser úteis. Mas nenhuma técnica de respiração compensa indefinidamente uma rotina construída sobre excesso de demanda, privação de sono e ausência de recuperação.
Precisamos olhar para o indivíduo, mas também para a forma como organizamos nossas vidas e nossos ambientes de trabalho.
Porque respeitar limites não significa eliminar os desafios que nos atravessam. Significa reconhecer que a nossa capacidade de responder a eles depende também do que acontece entre um desafio e o próximo.
Taleb escreve sobre aquilo que pode se beneficiar do caos.
A fisiologia nos lembra de uma condição importante: adaptação precisa de recuperação.
O estresse faz parte da vida e, em determinadas condições, da nossa capacidade de adaptação.
O problema é quando nunca existe o depois.
Jana Barcellos
Limites Humanos