Limites Humanos · Jana Barcellos
O limite mais difícil de estabelecer está entre o caos do outro e a nossa própria vida.

Escrevo este texto em meio a um desses momentos em que um problema que não nasceu das minhas escolhas, não foi provocado pelas minhas decisões e provavelmente não está ao meu alcance resolver começou, ainda assim, a ocupar meus pensamentos, interferir na minha rotina e consumir uma energia que antes estava destinada à minha própria vida.
Acho que muita gente conhece essa sensação.
Alguém próximo entra em uma sequência de conflitos, decisões ruins, problemas financeiros, relações difíceis, raiva, crises que parecem nunca terminar e nós, porque estamos por perto, começamos a viver também as consequências daquilo.
Primeiro escutamos, aconselhamos, tentamos ajudar. Depois começamos a antecipar o próximo problema, pensar no que aquela pessoa deveria fazer, imaginar como tudo poderia ser resolvido, reorganizar horários, conversas e até o nosso humor em função de uma situação que sequer começou em nós.
O caos tem uma capacidade impressionante de transbordar.
E existe um momento, difícil de perceber, em que deixamos de acompanhar o caos de alguém e começamos a habitá-lo.
A urgência do outro reorganiza a nossa agenda, a raiva dele ocupa nossos pensamentos, suas escolhas atravessam nosso trabalho, nossa casa, nossas relações e aquilo que chamávamos de preocupação começa a consumir partes importantes da nossa própria vida.
É aí que aparece uma das fronteiras mais difíceis da vida adulta: compreender que proximidade não nos torna responsáveis por tudo aquilo que acontece com alguém.
Na prática, estabelecer essa fronteira pode produzir culpa, medo e a sensação de abandono, especialmente porque fomos ensinados a admirar o sacrifício. A mãe que vive para os filhos, a pessoa que resolve todos os problemas da família, o amigo disponível a qualquer hora, aquele que suporta, compreende e permanece independentemente do preço que paga.
Por isso, o título de um livro de Ayn Rand sempre me provocou: A Virtude do Egoísmo.
Não é preciso concordar com toda a filosofia de Rand para reconhecer a pergunta desconfortável que existe ali: em que momento o cuidado com o outro passa a exigir o abandono de si?
Tenho pensado muito na imagem de duas pessoas presas pela mesma corda.
Uma delas cai e a outra tenta segurá-la, procura apoio, chama por ajuda, usa toda a força que possui e acredita que, se tentar um pouco mais, ainda conseguirá puxá-la de volta.
Só que existe um momento em que a pergunta muda. Até quando consigo segurar alguém sem cair junto?
Soltar a corda parece uma imagem brutal porque imediatamente pensamos em desistência, mas existem situações em que reconhecer o próprio limite significa aceitar que há decisões que não podemos tomar pelo outro, conflitos que não podemos resolver e consequências que pertencem às escolhas de quem as fez.
Aceitar isso também significa reconhecer um dos nossos limites humanos mais difíceis: não temos poder sobre a vida alheia.
Enquanto aconselhamos, protegemos, antecipamos e tentamos resolver, preservamos a sensação de que ainda existe alguma coisa que depende de nós, enquanto soltar exige admitir que existem histórias cujo desfecho nunca esteve em nossas mãos.
Nesse ponto, uma pergunta passa a importar tanto quanto todas aquelas que fazemos sobre o outro: o que está acontecendo com a nossa própria vida enquanto tentamos impedir que a vida de alguém desmorone?
Quantas noites, projetos, encontros, horas de trabalho, momentos com nossos filhos e períodos de tranquilidade entregamos a conflitos que não começaram em nós e que podemos nunca conseguir resolver?
Não acredito que a resposta esteja na indiferença. Podemos ajudar, escutar, oferecer presença e estender a mão, preservando ao mesmo tempo um espaço onde a nossa própria vida continue acontecendo.
Porque o caos do outro pode nos entristecer, preocupar, mobilizar e até exigir nossa presença durante algum tempo, mas ele não pode adquirir o direito permanente de morar dentro de nós.
Colocar limites também passa por reconhecer onde termina a vida de alguém e onde a nossa precisa continuar.
Em alguns momentos, vamos segurar a corda. Em outros, precisaremos dividir o peso. E haverá situações em que será necessário soltá-la.
Não porque deixamos de nos importar com quem está do outro lado, mas porque compreendemos que a nossa vida não pode ruir pela ruína alheia.
Jana Barcellos
Limites Humanos